Dois territórios podem registrar o mesmo número de episódios de violência armada e apresentar problemas bastante distintos. Em um deles, os registros se acumulam durante uma crise concentrada. No outro, reaparecem ao longo de muitos meses. Para os moradores, a diferença importa: a repetição pode comprometer de forma continuada a circulação, o acesso à escola e o funcionamento dos serviços.

Este estudo investiga duas questões: quantos episódios com ação policial registrada estão dentro de favelas e comunidades urbanas e em que medida seus locais se repetem. A análise utiliza dados do Fogo Cruzado de janeiro de 2024 a dezembro de 2025 em Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Belém e São Gonçalo, os cinco municípios mais populosos do cadastro monitorado na base URBIK. O recorte é municipal e não abrange integralmente suas regiões metropolitanas.

Resultado principal

Salvador e Belém têm aproximadamente 60% dos episódios dentro dos polígonos oficiais de comunidades. A recorrência mensal mais expressiva aparece em territórios de Salvador. No Rio, muitos pontos estão próximos às bordas; em São Gonçalo, a baixa coincidência cartográfica exige revisão territorial. As diferenças entre cidades precisam ser interpretadas junto da qualidade e do volume dos registros.

O que os registros permitem medir?

Foram examinados 7.883 registros, dos quais 2.671 apresentam ação policial assinalada. Todos os registros extraídos possuem coordenadas e identificadores únicos. O filtro não inclui episódios em que existe apenas presença de agentes sem ação policial informada.

MunicípioTodos os registrosCom ação policialParticipação local
Rio de Janeiro3.2631.14635,1%
Salvador2.4391.05143,1%
Recife1.217584,8%
Belém64926440,7%
São Gonçalo31515248,3%

Episódios com ação policial não equivalem necessariamente a confrontos com troca de tiros. A base também não representa o conjunto das operações policiais, pois ações sem disparos ficam fora desse universo. Além disso, o Fogo Cruzado pode produzir novos registros quando um tiroteio se prolonga ou ocorre em diferentes localidades. Identificadores únicos, portanto, não significam operações independentes.

O pequeno número de episódios com ação policial em Recife merece atenção: são 58 em dois anos. Sem uma auditoria específica da cobertura e da classificação, essa diferença não deve ser interpretada como medida direta da intensidade da atividade policial entre cidades.

Quantos episódios estão dentro das comunidades?

As coordenadas foram cruzadas com os limites de Favelas e Comunidades Urbanas do IBGE, a partir do Censo 2022 e do complemento de áreas não setorizadas divulgado em abril de 2026. A classificação principal inclui pontos internos ou exatamente sobre a borda. Em separado, examinamos os pontos externos a até 100 metros do limite.1

MunicípioDentro da comunidadeFora, até 100 mDentro ou entorno até 100 m
Rio de Janeiro391 (34,1%)301 (26,3%)692 (60,4%)
Salvador633 (60,2%)149 (14,2%)782 (74,4%)
Recife19 (32,8%)11 (19,0%)30 (51,7%)
Belém161 (61,0%)40 (15,2%)201 (76,1%)
São Gonçalo9 (5,9%)12 (7,9%)21 (13,8%)

Percentuais calculados sobre os episódios com ação policial de cada município. O entorno não integra a contagem estrita de eventos internos.

Belém e Salvador apresentam proporções internas semelhantes, em torno de seis em cada dez episódios. No Rio, aproximadamente um terço está dentro dos polígonos, mas outros 26,3% estão fora e a até 100 metros da borda. A soma chega a 60,4%, mostrando quanto a leitura territorial depende da delimitação adotada.

O entorno é uma análise de sensibilidade. Pode incluir ruas adjacentes e locais efetivamente externos; não constitui intervalo de confiança ou correção comprovada das coordenadas. Também há pontos internos próximos à borda, de modo que eventual erro de localização pode alterar a classificação nos dois sentidos.

Com um entorno de 50 metros, a proporção interna acrescida dos pontos próximos seria de 48,4% no Rio; com 200 metros, 72,9%. Em Salvador, os valores correspondentes são 68,7% e 82,6%. Esses resultados reforçam a necessidade de informar a regra cartográfica junto do percentual apresentado.

Por que São Gonçalo exige uma leitura específica?

Em São Gonçalo, apenas nove dos 152 episódios coincidem com os polígonos oficiais. Mesmo com um entorno de 200 metros, a proporção chega a somente 17,1%. Isso descreve a coincidência entre coordenadas e limites oficiais; não basta para concluir que a violência armada com ação policial seja rara em comunidades locais.

Os bairros informados com mais registros são Jardim Catarina, com 26 episódios, Salgueiro, com 13, e Bom Retiro, com 11. Esses nomes não foram usados para atribuir pertencimento a favelas: bairro e comunidade são unidades diferentes. Antes de produzir uma interpretação substantiva, é necessário reconciliar a localização dos episódios, as denominações locais e os polígonos oficiais.

A proporção interna tampouco é uma taxa de risco dos moradores. Não utilizamos população residente, exposição ou número de operações como denominador. Assim, uma proporção maior em Belém do que no Rio não demonstra maior risco individual para quem vive em comunidades.

Há comunidades com exposição recorrente?

Para medir recorrência, contamos os meses com ao menos um episódio. Um território ativo em 12 meses pode ter registros espaçados durante dois anos; os meses não precisam ser consecutivos. Os limiares utilizados são critérios descritivos, sem teste de significância espacial.

MunicípioComunidades com registrosNos dois anosEm ≥6 mesesEm ≥12 meses
Rio de Janeiro10053151
Salvador15473256
Recife17200
Belém742370
São Gonçalo4110

Em Salvador, seis comunidades apresentam registros em pelo menos 12 meses. Elas reúnem 155 episódios, equivalentes a 24,5% dos registros internos às comunidades. No Rio, uma comunidade alcança esse patamar, com 24 episódios. Belém tem sete comunidades com registros em pelo menos seis meses, mas nenhuma em 12.

Comunidade · municípioEpisódiosMeses ativos, de 24
Beiru / Tancredo Neves · Salvador4220
Valéria · Salvador2716
Nordeste de Amaralina · Salvador2416
Chico Mendes (Morro do Chapadão) · Rio2413
Fazenda Botafogo / Margem da Linha · Rio1410
Morro dos Macacos · Rio159
Baixadas da Estrada Nova Jurunas · Belém99
Baixadas da Condor · Belém97
Baixada do Guamá · Belém87
Morro do Castro · São Gonçalo66
Encanta Moça · Recife22
Campo Tabaiares · Recife22

Exemplos de recorrência por município, segundo as unidades e denominações do IBGE; não constituem um ranking completo.

Beiru / Tancredo Neves se destaca com registros em 20 dos 24 meses, distribuídos pelos dois anos: 17 episódios em 2024 e 25 em 2025. Valéria e Nordeste de Amaralina apresentam registros em 16 meses. Em Belém, os nove episódios de Baixadas da Estrada Nova Jurunas estão distribuídos por nove meses distintos.

O contraste entre Morro dos Macacos e Jacarezinho, no Rio, esclarece a diferença entre volume e persistência. Ambos tiveram 15 episódios, mas distribuídos por nove e quatro meses, respectivamente. No Jacarezinho, 12 dos 15 registros concentraram-se em um único mês. Totais iguais podem representar uma exposição mais distribuída ou uma crise concentrada.

A recorrência permanece quando aproximamos o mapa?

Comunidades têm tamanhos diferentes e podem reunir várias ruas. Por isso, repetimos a análise com uma grade fixa de células de 500 × 500 metros, incluindo todos os episódios com ação policial, internos e externos aos polígonos.

MunicípioCélulas com registrosCélulas para metade dos episódiosAtivas em ≥12 meses
Rio de Janeiro452613
Salvador425861
Recife52230
Belém183540
São Gonçalo92211

Metade dos episódios se concentra em 13,5% das células ocupadas no Rio e em 20,2% em Salvador. Em Recife, Belém e São Gonçalo, as proporções são 44,2%, 29,5% e 22,8%. O denominador é o conjunto de células com registros, não a área total do município. Volume e dispersão dos dados influenciam a comparação.

A continuidade no ponto específico é menor que na comunidade inteira. Em Belém, há comunidades com registros em nove meses, mas nenhuma célula da grade principal alcança seis meses. O padrão é compatível com repetição na unidade ampla e deslocamento entre seus locais internos.

O desenho da grade também importa. Ao deslocar sua origem, o número de células com registros em pelo menos 12 meses varia de zero a duas em Salvador, de duas a três no Rio e de zero a uma em São Gonçalo. Assim, uma classificação rígida de ponto persistente baseada em uma única grade seria frágil.

Os locais mais frequentes permanecem de um ano para outro?

Entre as 20 comunidades com mais registros em 2024, 13 permanecem entre as 20 em 2025 em Salvador e oito no Rio. Na grade principal de 500 metros, a sobreposição entre os 20 primeiros locais é de oito nas duas cidades. Há continuidade parcial, acompanhada de mudanças na distribuição territorial.

Em Belém, 14 comunidades aparecem nas duas listas, mas o corte da 20ª posição é de apenas um episódio em ambos os anos. Muitas unidades empatam, e o resultado depende fortemente do desempate por código. Esse número não deve ser tomado isoladamente como evidência de maior estabilidade. Recife e São Gonçalo sequer possuem 20 comunidades com registros em cada ano.

Implicações para a gestão pública

Primeiro, acompanhar a exposição continuada. Territórios recorrentes justificam acompanhamento regular das condições de circulação, das interrupções de aulas e do funcionamento dos serviços de saúde. Os episódios de tiros precisam ser relacionados a informações sobre esses impactos; o presente estudo não os mediu diretamente.

Segundo, distinguir repetição de crise concentrada. Uma sequência distribuída por muitos meses e uma escalada localizada podem exigir diagnósticos e respostas diferentes. O exemplo de Morro dos Macacos e Jacarezinho mostra por que o número acumulado de episódios é insuficiente para definir prioridades.

Terceiro, combinar escalas e validar o território. Em Belém, vale acompanhar as baixadas como unidades amplas e investigar os deslocamentos internos. No Rio, a proximidade das bordas recomenda conferir a localização antes de rankings definitivos. Em São Gonçalo, a reconciliação cartográfica é uma etapa necessária; no Recife, o pequeno volume de registros com ação policial limita conclusões sobre persistência.

Quarto, avaliar resultados das intervenções. A recorrência não demonstra que aumentar operações reduzirá a violência. Uma avaliação exigiria relacionar ações e objetivos com mortes, ferimentos, exposição de moradores e impactos sobre serviços, utilizando períodos e territórios comparáveis. Estes dados identificam onde aprofundar o acompanhamento, mas não estimam efeitos causais de políticas.

Conhecer os lugares onde a violência armada se repete ajuda a formular perguntas melhores. Para orientar a gestão pública, o volume precisa ser acompanhado de tempo, contexto e uma localização cuja precisão seja conhecida.

Fontes e referências

INSTITUTO FOGO CRUZADO. Perguntas frequentes: metodologia e critérios de registro. Dados de violência armada incorporados à base URBIK; extração de 13 de outubro de 2026.
IBGE. Censo Demográfico 2022: Favelas e Comunidades Urbanas — arquivos vetoriais. Polígonos principais e complemento de FCUs não setorizadas, atualizado em 10 de abril de 2026.
IBGE. Cidades e Estados: população municipal. Referência populacional de 2022 utilizada no cadastro monitorado.

1 Nota metodológica. Cálculos externos sobre extração de leitura da base URBIK. Seleção dos cinco municípios por população de referência 2022 do cadastro monitorado; ocorrências de 01/01/2024 a 31/12/2025, com ação policial assinalada. Coordenadas cruzadas com polígonos oficiais do Censo 2022 e complemento de 2026, sem reconstrução histórica dos limites. Distâncias em SIRGAS 2000/UTM: zonas 22S (Belém), 23S (Rio e São Gonçalo), 24S (Salvador) e 25S (Recife). O complemento não acrescentou episódios com ação policial à classificação interna nas cinco cidades. Atribuição única em sobreposições, priorizando município e código da FCU. Meses ativos não precisam ser consecutivos. Grades fixas de 250, 500 e 1.000 metros; apresentação principal em 500 metros, com quatro origens alternativas. Rankings por volume, desempate por código; empates tornam a comparação especialmente sensível em bases pequenas. Precisão das coordenadas e completude da coleta não foram validadas independentemente. Repetição de coordenadas não foi tratada como duplicação automática de eventos. FCUs podem fragmentar complexos conhecidos localmente. Não foram estimadas taxas por moradores ou exposição, intervalos de confiança, significância espacial ou efeitos causais. Ausência de registro não comprova ausência de episódios. Não houve alteração das bases permanentes ou funcionalidades analíticas da plataforma.

Fonte dos dados: Instituto Fogo Cruzado e IBGE. Elaboração e cálculos: URBIK. O recorte descreve cinco municípios monitorados e não representa o Brasil.