Municípios com mais armas apreendidas apresentam mais homicídios, mesmo quando consideramos população, urbanização, PIB por habitante e registros de prisões e apreensões como indicadores de atividade policial. Dentro de um mesmo município, a associação contemporânea também aparece nas comparações mensais e trimestrais. A evidência temporal fica menos precisa quando exigimos informação anterior suficiente para acrescentar duas medidas do perfil da violência.
Esses resultados decorrem da análise dos 645 municípios paulistas entre janeiro de 2024 e junho de 2026. O estudo combina bases da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, dados municipais do Sinesp e indicadores do IBGE. Seu objetivo é avaliar se a associação entre apreensões de armas e homicídios permanece quando tentamos separar diferenças de atividade policial e de contexto municipal.
Por que controlar a atividade policial
Uma apreensão de arma pode revelar maior circulação de armamento, uma ação policial mais intensa ou ambos. Comparar apenas apreensões e homicídios deixaria sem resposta uma questão fundamental: estamos observando territórios mais armados ou territórios nos quais as polícias procuram, encontram e registram mais armas?
O estudo utiliza os registros de pessoas presas ou apreendidas na base de produtividade como indicadores indiretos de atividade policial. Foram comparadas especificações com o total de pessoas, flagrantes e flagrantes em boletins sem apreensão de armas. A última é o controle operacional principal: evita que a prisão realizada no mesmo boletim da arma explique mecanicamente os dois indicadores.
A pergunta estatística passa a ser se, entre municípios ou períodos com níveis semelhantes dessa atividade observada, as apreensões de armas ainda se associam aos homicídios. O ajuste não transforma prisões em medida completa do esforço policial. Efetivo, horas de patrulhamento, abordagens, operações e prioridades não são diretamente observados; prisões também respondem à criminalidade. Por isso, o controle melhora a comparação em uma dimensão mensurável, sem garantir que toda influência policial tenha sido eliminada.
As bases e as unidades de análise
O painel reúne 19.350 observações município-mês, correspondentes a 645 municípios durante trinta meses. Após deduplicação e tratamento de conflitos de identificação, foram contabilizadas 34.510 armas apreendidas e 6.024 boletins de homicídio doloso. A agregação trimestral produz 6.450 observações em dez trimestres completos.
O desfecho mede boletins, não vítimas, e abrange homicídios dolosos independentemente do instrumento utilizado. Um boletim pode conter mais de uma vítima. As apreensões representam armas registradas como apreendidas nas planilhas, sem equivaler ao estoque de armas em circulação.
O Sinesp acrescenta o sexo das vítimas. No universo formado por homicídio doloso e feminicídio, registra 6.350 vítimas: 1.080 femininas, 5.170 masculinas e 100 de sexo ignorado. As mulheres representam 17,28% das vítimas com sexo conhecido. Essa informação serve para construir um indicador complementar; não substitui a contagem de boletins da SSP. População e urbanização referem-se ao Censo 2022; o indicador econômico utiliza o PIB municipal de 2023 dividido pela população de 2022, sem confundi-lo com renda domiciliar.
Duas comparações complementares
A comparação entre municípios identifica diferenças territoriais persistentes: cidades com maior média de apreensões apresentam mais homicídios ao longo do período? Foram incluídos controles de população, urbanização, PIB por habitante e atividade policial.
A comparação intramunicipal examina outra variação: em meses ou trimestres nos quais um município registra mais apreensões, seus homicídios também se alteram? Efeitos fixos municipais absorvem características locais constantes. Efeitos de cada mês ou trimestre do calendário absorvem movimentos comuns ao estado. Os modelos são Poisson, com incerteza robusta, agrupada por município na análise temporal.
Todas as armas apreendidas integram a análise principal, inclusive 832 vinculadas a boletins também classificados como homicídio. Essa coocorrência documentada faz parte da relação investigada. Preservá-la permite estudar o universo completo de apreensões. O vínculo, contudo, não informa se aquela arma foi usada para matar, se foi localizada posteriormente na investigação ou qual evento antecedeu o outro.
A associação resiste ao controle policial
A tabela apresenta o contraste entre uma e duas armas apreendidas por mês. Nos modelos entre municípios e nos trimestrais, a comparação utiliza a média mensal de apreensões. Os percentuais expressam diferenças estimadas no número esperado de boletins de homicídio, mantidos os controles.
| Comparação | Controle policial | Associação | IC de 95% |
|---|---|---|---|
| Entre municípios | Sem controle | +14,90% | +8,27% a +21,94% |
| Entre municípios | Com controle | +15,56% | +8,38% a +23,22% |
| Mensal no mesmo município | Sem controle | +4,84% | +2,43% a +7,30% |
| Mensal no mesmo município | Com controle | +4,86% | +2,44% a +7,33% |
| Trimestral no mesmo município | Sem controle | +5,53% | +1,56% a +9,65% |
| Trimestral no mesmo município | Com controle | +5,51% | +1,52% a +9,65% |
Fonte: cálculos Urbik sobre SSP-SP e indicadores municipais. Controle principal: flagrantes em BOs sem apreensão de armas. Os modelos entre cidades também incluem controles socioeconômicos e ajuste populacional. Nas análises temporais, 487 municípios com homicídios no período contribuem para a estimação: 14.610 observações mensais ou 4.870 trimestrais.
A inclusão da atividade policial não dissolve a associação. Nos modelos mensais e trimestrais, a estimativa muda pouco quando utilizamos o controle principal. Usando o total de pessoas como controle, os contrastes são +4,37% no modelo mensal e +5,15% no trimestral; com flagrantes, +4,28% e +5,11%, respectivamente. Nessas alternativas, os intervalos de 95% também permanecem acima de zero.
Assim, os dados não favorecem a explicação de que a associação decorra exclusivamente da atividade policial capturada por esses indicadores. Isso não equivale a demonstrar que o restante seja efeito causal das armas: prioridades de fiscalização, resposta à violência e condições não observadas continuam podendo influenciar o resultado.
Quanto representa uma arma adicional
Os coeficientes podem ser expressos em elasticidades e diferenças médias de contagem. Como as apreensões entram em log(1+x), não existe um efeito fixo universal de cada arma. O resultado depende da quantidade inicial de apreensões e do nível previsto de homicídios. Calculamos a diferença para cada observação e depois sua média, mantendo constantes os demais controles e efeitos fixos.
| Comparação com controle policial | Acréscimo nas apreensões | Diferença média estimada nos BOs de homicídio |
|---|---|---|
| Entre municípios | Uma arma por mês, na média municipal | +0,022 BO por mês, equivalente a +0,670 nos trinta meses |
| Mensal no mesmo município | Uma arma no mês | +0,010 BO no mês |
| Trimestral no mesmo município | Uma arma no trimestre | +0,012 BO no trimestre |
Na comparação entre municípios, uma arma adicional na média mensal corresponde a trinta armas adicionais no período de trinta meses. Se o contraste for apenas uma arma a mais no total de todo o período, a diferença média estimada é +0,025 BO ao longo desses trinta meses. Na análise trimestral, uma arma adicional por mês significa três armas no trimestre: esse contraste corresponde a +0,031 BO no trimestre.
| Modelo | Elasticidade agregada | 10% mais apreensões |
|---|---|---|
| Entre municípios | 0,275 | +2,67% de BOs |
| Intramunicipal mensal | 0,086 | +0,82% de BOs |
| Intramunicipal trimestral | 0,102 | +0,98% de BOs |
Outra apresentação é simular uma elevação proporcional de 10% das apreensões em todas as observações, mantendo os demais componentes dos modelos constantes. A variação do total previsto de BOs é +2,67% entre municípios, +0,82% no modelo mensal e +0,98% no trimestral. As elasticidades agregadas locais correspondentes são 0,275, 0,086 e 0,102. Assim, um acréscimo proporcional pequeno de 1% nas apreensões corresponde a aproximadamente 0,275%, 0,086% e 0,102% no total previsto, respectivamente.
As elasticidades agregadas ponderam as elasticidades individuais pelos homicídios previstos, para corresponder à variação do total. Não devem ser confundidas com os coeficientes de log(1+x) ou com uma média não ponderada das elasticidades municipais. As estimativas são pontuais dos modelos com controle policial da primeira tabela, sem as duas proxies adicionais; os intervalos apresentados anteriormente continuam sendo os do contraste de uma para duas armas.
Esses números tornam a associação mais concreta, sem lhe atribuir causalidade. Mais apreensões podem indicar maior circulação, fiscalização ou resposta ao crime. A análise entre cidades compara perfis municipais; não prevê a trajetória de uma cidade após uma intervenção. Todos os valores se referem a BOs de homicídio, não diretamente a vítimas ou a mortes por arma de fogo.
O perfil da violência e as hipóteses sobre organização criminal
Foram acrescentadas duas medidas exploratórias: a razão entre boletins de tentativa e de homicídio consumado e a proporção de vítimas femininas entre vítimas de sexo conhecido. As hipóteses são que execuções mais letais e maior predominância masculina poderiam caracterizar determinados contextos de violência organizada.
Essas hipóteses não autorizam classificar municípios como dominados por organizações criminosas. A razão também depende de socorro, instrumento da agressão e registro policial; a composição por sexo pode refletir violência doméstica, estrutura etária e exposição diferencial. Para evitar que o próprio homicídio corrente componha o controle, as duas medidas foram calculadas sobre os doze meses anteriores ao trimestre analisado.
| Controle acrescentado | Dentro dos municípios | IC de 95% | Entre municípios | IC de 95% |
|---|---|---|---|---|
| Sem as duas medidas | +5,31% | −0,28% a +11,20% | +19,28% | +8,15% a +31,55% |
| Razão tentativas/consumados | +4,60% | −0,83% a +10,33% | +17,39% | +6,07% a +29,91% |
| Proporção feminina | +5,16% | −0,46% a +11,09% | +18,95% | +7,90% a +31,13% |
| Ambas | +4,44% | −1,03% a +10,20% | +17,11% | +5,86% a +29,56% |
Fonte: cálculos Urbik sobre SSP-SP, Sinesp e IBGE, mantendo todas as apreensões e o controle policial. Na análise temporal, os quatro modelos usam os mesmos 287 municípios e 1.606 município-trimestres de 2025-T1 a 2026-T2. Entre municípios, as medidas vêm de 2024 e o desfecho de janeiro de 2025 a junho de 2026; os quatro modelos usam as mesmas 379 cidades.
Os resultados temporais dessa segunda tabela são menos precisos já no modelo sem as duas medidas. A exigência de informação anterior reduz o período e a amostra; portanto, a perda de precisão não pode ser atribuída apenas à inclusão dos controles. Com ambas, a estimativa permanece positiva, mas seu intervalo inclui zero. Entre municípios, a associação positiva permanece.
As duas medidas não apresentam redundância importante: seus VIF são aproximadamente 1 na análise temporal e 1,25 e 1,03 entre municípios. Não há, porém, evidência suficiente para escolher a melhor proxy de organização criminal. A razão apresenta sinais distintos entre especificações, e a proporção feminina tem coeficientes imprecisos. Validá-las exigiria informação independente sobre organizações criminosas.
Limites e implicações para as políticas públicas
A associação contemporânea é diferente de antecipação temporal. Com as armas e os controles policiais do trimestre anterior, mantendo ambas as medidas de perfil da violência, o contraste é +0,07%, com intervalo de −4,78% a +5,17%. A janela não estabelece uma relação defasada clara, embora também não descarte efeitos persistentes ou de prazo mais longo.
O ajuste populacional merece atenção. Na comparação entre municípios com ambas as medidas, população e atividade policial têm VIF de aproximadamente 15,66 e 14,34. Retirar a covariável adicional de população, mantendo o offset populacional, reduz a associação das armas de +17,11% para +9,67%, com intervalo de +0,56% a +19,61%. O sinal positivo permanece nessa sensibilidade, mas a magnitude depende da especificação.
A fonte também impõe limites. Prisões e apreensões são registros de atividade, não amostras aleatórias das armas em circulação. Os meses são estatísticos, não uma ordenação precisa de todos os fatos. As bases SSP e Sinesp diferem em unidade, classificação e possibilidade de revisão; a composição por sexo do Sinesp possui anomalias de codificação preservadas na auditoria. Municípios com poucos eventos são mais excluídos quando exigimos denominadores anteriores definidos.
Para a política pública, o estudo recomenda avaliar apreensões juntamente com atividade policial, características das armas e contexto da violência. Uma queda de apreensões, isoladamente, não distingue menor circulação de menor fiscalização; um aumento tampouco mede sozinho sucesso ou fracasso. Metas operacionais ganham sentido quando acompanhadas por indicadores de circulação e de violência, investigação sobre a origem das armas e medidas diretas de esforço policial.
A contribuição do estudo é mostrar que a associação observada entre apreensões e homicídios permanece após diferentes ajustes por produtividade policial. Ela é compatível com maior presença de armas em contextos mais violentos, mas também com outros mecanismos que os dados não separam integralmente. Os coeficientes não estimam mortes causadas por uma arma adicional nem vidas poupadas por cada apreensão.
Fontes e referências
SSP-SP. SPDadosCriminais e DadosProdutividade, versões de 2024, 2025 e primeiro semestre de 2026 preservadas na análise. Estatísticas e bases.
MJSP. Sinesp VDE, dados municipais por sexo e notas metodológicas, recorte de janeiro de 2024 a junho de 2026. Base e documentação.
IBGE. Censo Demográfico 2022, situação urbana e população; PIB dos Municípios 2023. Indicadores contextuais extraídos anteriormente no Urbik.
Cerqueira, D.; De Mello, J. M. P. Evaluating a National Anti-Firearm Law and Estimating the Causal Effect of Guns on Crime. PUC-Rio, Texto para Discussão 607, 2013. Referência de desenho causal sobre armas, não fonte dos coeficientes deste estudo. Texto.
Cinelli, C.; Forney, A.; Pearl, J. A Crash Course in Good and Bad Controls. Sociological Methods & Research, 53(3), 1071–1104, 2024. Referência para os limites da interpretação de controles em regressões. DOI.
Nota metodológica. As exposições e controles operacionais utilizam log(1+x). Nos trimestres, x é a contagem dividida por três; entre municípios, a média mensal. O contraste apresentado é 100 × {exp[β × log(3/2)] − 1}, correspondente à passagem de uma para duas armas na unidade indicada, não a qualquer duplicação. A análise temporal usa Poisson com efeitos fixos municipais e de período, correção CR1 e referência t; entre municípios, Poisson com offset populacional, covariância HC1 e controles contextuais. Municípios sem homicídios na janela efetiva não identificam o coeficiente temporal. Intervalos são nominais, sem ajuste de multiplicidade ou dependência espacial. As duas medidas exploratórias utilizam denominadores anteriores; valores indefinidos não foram preenchidos com zero. Nenhuma tabela permanente do Urbik foi alterada.