Esta versão substitui integralmente os resultados espaciais divulgados anteriormente. Todos os crimes foram recalculados com a mesma população, o mesmo período, zeros explícitos, matrizes documentadas e uma rotina única e reprodutível.
Mapas municipais de criminalidade podem produzir uma impressão enganosa de unidade. Taxas altas aparecem lado a lado e sugerem que todos os delitos obedecem às mesmas forças territoriais. Quando cada grupo é examinado separadamente, porém, a imagem muda: os roubos formam uma grande estrutura metropolitana e costeira; os furtos têm concentração mais moderada; os homicídios compõem um padrão regional menos intenso; e a violência sexual se concentra em áreas diferentes das manchas patrimoniais.
Este estudo pergunta se municípios próximos apresentam taxas semelhantes e se os agrupamentos locais permanecem quando mudamos a definição de vizinhança. A resposta é clara no plano global: nenhum dos quatro mapas é espacialmente aleatório. No plano local, entretanto, apenas os roubos produzem um núcleo alto–alto que resiste ao controle de falsos positivos e às três matrizes espaciais utilizadas.
Um retrato médio de dois anos
Foram reunidos os registros de 2024 e 2025. O objetivo não é medir mudanças no tempo, mas obter um retrato transversal mais estável. Para cada município, a taxa média anual do biênio corresponde às ocorrências dos dois anos divididas por duas vezes a população residente do Censo 2022, multiplicadas por 100 mil.
Furtos incluem todas as naturezas iniciadas por “furto”; roubos, todas as iniciadas por “roubo”; homicídios, as classificações iniciadas por “homicídio doloso”; e violência sexual, estupro e estupro de vulnerável. Municípios sem registro foram mantidos com valor zero. Nenhuma cidade foi retirada por não alcançar determinado número de ocorrências.
| Grupo criminal | Ocorrências | Com registro | Sem registro | Taxa anual estadual |
|---|---|---|---|---|
| Furtos | 1.287.124 | 645 | 0 | 1.449,1 |
| Roubos | 411.688 | 553 | 92 | 463,5 |
| Homicídios dolosos | 4.955 | 461 | 184 | 5,6 |
| Violência sexual | 29.022 | 633 | 12 | 32,7 |
Para furtos e roubos, foram usadas taxas brutas. Para homicídios e violência sexual, foram utilizadas taxas empírico-bayesianas globais, que reduzem oscilações provocadas por populações pequenas e poucos eventos sem eliminar municípios ou alterar as contagens originais.
Como foi medida a dependência espacial
O I de Moran global mede se municípios próximos tendem a apresentar valores semelhantes. A especificação principal conectou cada município às cinco sedes municipais mais próximas, com maior peso para as menores distâncias. Essa matriz KNN5 inclui os 645 municípios e não possui ilhas. Os resultados foram confrontados com Queen, que considera qualquer ponto de contato entre fronteiras, e Rook, que exige fronteira compartilhada.
Foram realizadas 999 permutações em cada teste. Nos indicadores locais LISA, a correção de Benjamini–Hochberg controlou em 5% a taxa de falsas descobertas entre as 645 comparações de cada crime e matriz. Nos mapas, as cores representam resultados com significância nominal de 5%; o contorno escuro identifica os municípios que também permanecem significativos após o FDR.
Quatro crimes, quatro intensidades espaciais
| Grupo criminal | KNN5 | Queen | Rook | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| Furtos | 0,434 | 0,423 | 0,422 | Concentração moderada e estável |
| Roubos | 0,782 | 0,816 | 0,808 | Concentração muito forte e estável |
| Homicídios dolosos | 0,337 | 0,265 | 0,263 | Concentração menor e sensível à vizinhança |
| Violência sexual | 0,363 | 0,366 | 0,367 | Concentração moderada e globalmente estável |
Todos os coeficientes tiveram valor empírico de p = 0,001. A magnitude, contudo, é muito diferente. O Moran dos roubos é quase o dobro do observado nos furtos e mais de duas vezes o da violência sexual. Homicídios apresentam o resultado mais variável entre a matriz de sedes próximas e as matrizes de fronteira.
Roubos formam o agrupamento local mais robusto

Na matriz principal, 30 municípios foram classificados como alto–alto depois da correção de falsos positivos. Queen identificou 33 e Rook, 35. O núcleo comum às três matrizes reúne 26 municípios: Barueri, Cotia, Cubatão, Diadema, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Ferraz de Vasconcelos, Guarulhos, Itanhaém, Itapecerica da Serra, Itaquaquecetuba, Jandira, Mauá, Mogi das Cruzes, Mongaguá, Osasco, Poá, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, São Lourenço da Serra, São Paulo, São Vicente, Suzano e Taboão da Serra.
O agrupamento conecta a Região Metropolitana de São Paulo à Baixada Santista e alcança o eixo de Mogi das Cruzes. A continuidade sugere uma geografia de circulação: deslocamentos pendulares, centralidades comerciais, corredores viários, transporte coletivo e fluxos de veículos. Arujá, Bertioga, Guarujá e Praia Grande foram significativos na KNN5, mas não permaneceram no núcleo comum às três matrizes.
Furtos são concentrados, mas menos localmente estáveis

O I de Moran dos furtos permaneceu próximo de 0,42 nas três especificações. Isso confirma uma estrutura regional moderada. A evidência local, entretanto, é menos robusta: nenhum município foi significativo após FDR simultaneamente nas três matrizes. A Rook identificou 16 casos alto–alto corrigidos, enquanto KNN5 e Queen não produziram descobertas locais sob o mesmo critério.
Sem a correção, 27 municípios apareceram como alto–alto nas três matrizes. A mancha exploratória combina Baixada Santista, litoral sul e municípios da Região Metropolitana, incluindo Santos, São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá, São Paulo, Guarulhos e municípios do ABC. O padrão estadual é inequívoco, mas a delimitação de núcleos municipais permanece sensível à matriz e ao controle estatístico.
Homicídios revelam outro corredor regional

Os homicídios dolosos apresentaram Moran de 0,337 na matriz de sedes próximas e aproximadamente 0,26 nas matrizes de fronteira. Nenhum agrupamento local sobreviveu à correção FDR. No nível nominal, 17 municípios permaneceram alto–alto nas três matrizes: Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas, Caraguatatuba, Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, Lorena, Pedro de Toledo, Pindamonhangaba, Piquete, Potim, Roseira, Silveiras, Taubaté, Tremembé e Ubatuba.
A lista aponta principalmente para o Vale do Paraíba e o Litoral Norte, além de Pedro de Toledo. Trata-se de uma pista regional consistente entre matrizes, mas exploratória no plano inferencial. Como 184 municípios não registraram homicídio no biênio e somente 55 alcançaram 20 ocorrências, a incerteza local é maior do que nos crimes patrimoniais.
A violência sexual não acompanha o mapa dos roubos

A violência sexual apresentou Moran entre 0,363 e 0,367 nas três matrizes, uma estabilidade global notável. Os agrupamentos locais, contudo, mudaram com a vizinhança. Queen identificou 24 municípios alto–alto após FDR; Rook, 16; KNN5, nenhum. Portanto, não há núcleo alto–alto robusto às três especificações sob o critério corrigido.
No nível nominal, 38 municípios permaneceram alto–alto nas três matrizes. Eles se concentram sobretudo no Vale do Ribeira e no sudoeste paulista, com presença de Barra do Turvo, Cajati, Cananéia, Eldorado, Iguape, Iporanga, Jacupiranga, Juquiá, Miracatu, Pariquera-Açu, Registro, Sete Barras, Apiaí, Itapeva, Itararé e Taquarivaí. O desenho é muito diferente do corredor metropolitano dos roubos.
A interpretação exige cautela. Registros policiais de violência sexual são influenciados pelo acesso à delegacia, confiança nas instituições, disponibilidade de serviços e atuação da rede de proteção. Taxas registradas mais altas podem refletir maior incidência, melhor detecção ou ambas.
A semelhança entre crimes é limitada
| Pares de taxas municipais | Pearson | Spearman |
|---|---|---|
| Furtos × roubos | 0,565 | 0,604 |
| Furtos × homicídios | 0,110 | 0,069 |
| Furtos × violência sexual | 0,120 | 0,065 |
| Roubos × homicídios | 0,088 | 0,073 |
| Roubos × violência sexual | −0,075 | −0,064 |
| Homicídios × violência sexual | 0,028 | 0,056 |
Furtos e roubos apresentam a única associação claramente relevante. Nos demais pares, as correlações são pequenas. Mesmo entre os crimes patrimoniais os mapas não são equivalentes: entre os agrupamentos alto–alto nominais que permaneceram nas três matrizes, 20 municípios são comuns aos dois crimes.
Por que os resultados corrigidos diferem dos anteriores
A auditoria reproduziu exatamente as contagens e as correlações entre furtos e roubos da base anterior, demonstrando que a divergência não surgiu de uma troca dos registros municipais. Nos crimes patrimoniais, os antigos valores apresentavam uma assinatura próxima à divisão indevida do Moran por dois. Nos crimes menos frequentes, valores próximos aos anteriores só apareceram quando municípios com zero ou poucas ocorrências eram retirados, procedimento incompatível com uma análise dos 645 municípios.
Não foi possível reconstruir uma única sequência antiga que explicasse simultaneamente os quatro números. Por isso, a correção refez toda a análise, preservou os zeros, documentou as transformações e verificou os resultados globais por uma segunda implementação independente.
O que muda para a política municipal
Limitações
O estudo reúne dois anos para estabilizar as taxas e não analisa tendências. Registros policiais dependem de notificação e classificação. A população residente não representa integralmente a exposição produzida por turismo, trabalho pendular, circulação de veículos e centralidades comerciais. As matrizes de proximidade entre sedes e de contiguidade são aproximações de relações territoriais mais complexas.
Com 999 permutações, o menor valor empírico possível é 0,001. A correção FDR torna os resultados locais deliberadamente conservadores; ausência de municípios significativos não equivale à ausência de estrutura espacial. Associação espacial, por fim, não identifica mecanismos causais.
Cada crime tem, de fato, sua própria geografia. O contraste mais sólido aparece entre o grande corredor metropolitano dos roubos e as estruturas mais moderadas, específicas e estatisticamente frágeis dos demais grupos.
Fontes e referências
ANSELIN, L. Local Indicators of Spatial Association—LISA. Geographical Analysis, v. 27, n. 2, p. 93–115, 1995. DOI.
LAW, J.; QUICK, M.; CHAN, P. Bayesian spatio-temporal modeling for analysing local patterns of crime over time at the small-area level. Journal of Quantitative Criminology, v. 30, p. 57–78, 2014.
QUICK, M.; LI, G.; BRUNTON-SMITH, I. Crime-general and crime-specific spatial patterns. Journal of Criminal Justice, v. 58, p. 22–32, 2018.
SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Registros criminais municipais, 2024–2025.
IBGE. Censo Demográfico 2022 e Malha Municipal Digital 2024.