É possível conhecer a violência de uma cidade sem depender exclusivamente das estatísticas governamentais? A expansão de iniciativas que recebem relatos de moradores, verificam informações e documentam episódios de violência abriu novas possibilidades de acompanhamento da segurança pública. Além de ampliar a transparência, essas organizações permitem confrontar informações, identificar lacunas e observar contextos que nem sempre aparecem nas divulgações oficiais. Uma questão, porém, precisa ser examinada empiricamente: o retrato produzido por essas fontes é compatível com aquele encontrado nos registros do Estado?

Salvador oferece uma oportunidade para essa comparação. A cidade é monitorada pelo Instituto Fogo Cruzado e dispõe de microdados de mortes violentas divulgados pela Secretaria da Segurança Pública da Bahia. A análise dos registros de janeiro de 2024 a dezembro de 2025 permite investigar se as duas fontes acompanham os mesmos movimentos no tempo, identificam áreas semelhantes de concentração e descrevem perfis próximos de vítimas.

O resultado central é claro: há forte convergência na trajetória mensal da violência letal e nas grandes áreas de concentração. Essa compatibilidade, entretanto, não significa igualdade de totais, equivalência de classificações ou correspondência exata entre os casos. As fontes oferecem observações complementares, cujas diferenças também ajudam a compreender como a informação sobre violência é produzida.

Duas fontes, universos distintos

O primeiro cuidado consiste em reconhecer que elas não observam universos idênticos. O Fogo Cruzado acompanha a violência armada, combinando notificações de moradores, parceiros locais, imprensa e autoridades, submetidas à checagem por analistas. Trata-se de uma fonte colaborativa e multicanal, com participação comunitária, e não de um levantamento formado exclusivamente por relatos de moradores.

Os arquivos oficiais abrangem diferentes categorias de mortes violentas, como homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e intervenção legal. Como os arquivos examinados não identificam o meio empregado, não foi possível selecionar apenas as mortes por arma de fogo. Essa diferença impede interpretar a distância entre os totais como medida direta de subnotificação de qualquer uma das fontes.

A trajetória mensal converge

Em 2024, o Fogo Cruzado registrou 949 vítimas fatais em Salvador; em 2025, foram 837, uma redução de 11,8%. No conjunto oficial analisado, os registros passaram de 1.339 para 1.133, queda de 15,4%. Ambas as fontes apontam diminuição da violência letal entre os dois anos, embora com intensidade diferente.

A convergência aparece com mais força quando se acompanha a sequência dos meses. A correlação de Spearman entre os totais mensais foi de 0,945, em uma escala na qual valores próximos de um indicam forte associação positiva. Em termos simples, os meses relativamente mais violentos em uma fonte tendem a ser também os mais violentos na outra.

Esse resultado não depende apenas da queda entre 2024 e 2025. A associação permanece elevada quando cada ano é examinado separadamente e quando se comparam os aumentos e as reduções entre meses consecutivos. Nessa última comparação, a correlação foi de 0,896. Entre as 22 transições mensais nas quais ambas as fontes apresentaram variação, 19 tiveram o mesmo sentido.

Há evidência consistente de que o Fogo Cruzado acompanha as oscilações da violência letal observadas nos registros oficiais. Isso não significa que conte todas as mesmas mortes. Uma fonte pode registrar sistematicamente menos casos e, ainda assim, reproduzir de maneira bastante próxima a evolução do fenômeno. Para acompanhar tendências, essa convergência é relevante; para estimar cobertura integral, é insuficiente.

Convergência temporal e espacial em números

Dimensão comparadaSpearmanInterpretação
Totais mensais · 24 meses0,945Forte associação na trajetória
Meses de 20240,942Convergência dentro do ano
Meses de 20250,946Convergência dentro do ano
Variações entre meses0,896Movimentos mensais semelhantes
Células de 1 km0,846–0,871Concordância em áreas amplas
Células de 500 m0,543–0,558Associação intermediária
Células de 250 m0,034–0,048Pouca concordância na escala fina

Faixas espaciais correspondem a quatro posicionamentos da grade, não a intervalos de confiança. Correlação não mede igualdade de totais, cobertura ou identidade dos casos.

Atuação policial: contexto não equivale a autoria

No Fogo Cruzado, foram identificadas 375 mortes em episódios com ação policial em 2024 e 387 em 2025. Nos dados oficiais, as mortes classificadas como intervenção legal passaram de 420 para 418.

As categorias não são intercambiáveis. Uma morte ocorrida em episódio com ação policial não comprova, por si só, que o disparo fatal tenha sido efetuado por um agente do Estado. O contexto do episódio e a classificação da autoria são dimensões distintas. Ainda assim, as séries mensais desses recortes apresentam forte associação.

Nas duas fontes, aumentou a participação relativa das mortes vinculadas a esses contextos no total registrado. No Fogo Cruzado, essa proporção passou de 39,5% para 46,2%; na base oficial, as intervenções legais passaram de 31,4% para 36,9%. Esse crescimento proporcional ocorreu em um cenário de queda do total de mortes. Não deve ser confundido com aumento absoluto em ambas as fontes.

A geografia depende da escala

Quando os registros são agrupados em células de um quilômetro de lado, a correlação entre as fontes fica entre 0,85 e 0,87, conforme o posicionamento da grade. Elas identificam grandes áreas de concentração semelhantes. Ao reduzir o tamanho das células para 500 metros, a associação cai para aproximadamente 0,54 a 0,56. Em células de 250 metros, fica próxima de zero.

Essa diferença pode envolver precisão das coordenadas, uso de referências distintas para localizar uma ocorrência, diferenças de cobertura e pequenas contagens nas células menores. Um deslocamento relativamente curto pode colocar registros do mesmo episódio em células vizinhas. Os resultados não permitem atribuir a divergência a uma única causa, mas estabelecem um limite prático: as fontes são mais compatíveis para identificar zonas amplas de concentração do que para indicar, sem conferência adicional, uma rua ou um ponto exato.

A disponibilidade de coordenadas também interfere nessa comparação. No conjunto oficial, 251 dos 2.472 registros não possuem coordenadas válidas. Essa ausência é desigual: atinge 15,6% das intervenções legais e 7,3% das demais mortes no período.

O mapa oficial disponível não representa todas as categorias na mesma proporção. Essa diferença de preenchimento não demonstra intenção de ocultação, mas precisa ser considerada ao interpretar a geografia da violência. A concordância espacial observada se refere aos registros que puderam ser localizados, e não à totalidade das mortes.

Semelhanças e lacunas nos perfis das vítimas

Homens representam 94,5% das vítimas fatais no Fogo Cruzado e 93,9% nos dados oficiais, mediante uma aproximação entre as categorias de sexo e gênero utilizadas pelas duas fontes. A predominância masculina é muito semelhante.

Entre os registros com idade numérica válida, a mediana é de 26 anos nas duas fontes. A participação de pessoas de 18 a 29 anos também é próxima: 54,3% no Fogo Cruzado e 55,7% na base oficial. Contudo, a idade está disponível em apenas 28,8% das mortes do Fogo Cruzado, contra 98,1% das oficiais. A semelhança entre os casos informados não autoriza concluir que o perfil etário de todas as vítimas seja equivalente.

Essa incompletude é especialmente acentuada nas mortes em episódios com ação policial: somente 13,1% têm idade numérica válida no Fogo Cruzado. A ausência de informação varia conforme o contexto, o que pode influenciar o perfil observado. Para cor ou raça, quase metade dos registros de cada fonte não possui informação utilizável na harmonização, também restringindo conclusões sobre o conjunto das vítimas.

Examinar os vieses das duas fontes

Fontes colaborativas podem ser afetadas por diferenças na capacidade de notificação, no acesso à comunicação, no medo de informar e na visibilidade jornalística dos episódios. Os registros oficiais podem apresentar problemas de preenchimento, localização, classificação e atualização. Nenhuma fonte deve ser presumida como uma medida sem erro.

É necessário separar limitações demonstradas de explicações ainda hipotéticas. A ausência desigual de coordenadas nos registros oficiais e a incompletude etária do Fogo Cruzado são observáveis nos dados. Já a hipótese de que determinados episódios recebam mais notificações por sua repercussão exige informações adicionais sobre o processo de coleta. A diferença entre fontes, isoladamente, não identifica sua causa.

Também seria inadequado tratar toda convergência como confirmação por observações independentes. Informações de autoridades e da imprensa integram os canais utilizados pelo Fogo Cruzado. Parte da concordância pode decorrer da circulação de informações sobre os mesmos acontecimentos. Isso não elimina o valor da checagem e da documentação colaborativa, mas recomenda cautela ao interpretar a associação entre as fontes.

Transparência e informação complementar

O mérito público dessas iniciativas vai além de reproduzir estatísticas governamentais. Elas ampliam as condições de escrutínio, preservam informações sobre episódios e contextos e oferecem à sociedade instrumentos para questionar narrativas e acompanhar a segurança pública. Onde faltam dados oficiais detalhados, essa contribuição pode ser ainda mais importante. Onde eles existem, como no caso examinado, torna-se possível confrontar os retratos e avaliar a qualidade de ambos.

Em Salvador, a evidência sustenta uma conclusão favorável, mas delimitada: o Fogo Cruzado acompanha de maneira consistente a evolução mensal da violência letal e identifica grandes áreas de concentração semelhantes às dos registros oficiais. As diferenças de universo, classificação e preenchimento impedem tratar as fontes como equivalentes em todos os aspectos.

A transparência se fortalece quando diferentes instituições podem observar o mesmo problema, tornar seus procedimentos verificáveis e explicar suas limitações. A contribuição de uma fonte colaborativa não está em substituir automaticamente o Estado, mas em ampliar a capacidade da sociedade de conhecer, acompanhar e cobrar respostas para a violência.

Fontes e referências

INSTITUTO FOGO CRUZADO. Registros de violência armada de Salvador, 2024–2025. Procedimentos de coleta e checagem.
SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA DA BAHIA. Microdados de mortes violentas de 2024 e 2025. Portal de estatísticas.

Nota metodológica. Estudo observacional descritivo de Salvador, de 01/01/2024 a 31/12/2025: 1.786 vítimas fatais com identificadores distintos no Fogo Cruzado e 2.472 registros fatais nos CSVs oficiais, todos com TOTAL=1. Extração principal do Fogo Cruzado em 13/10/2026 e conferência de perfis em 15/10/2026. A data do episódio pode diferir da data posterior do óbito. A comparação temporal utiliza o conjunto oficial completo; não há campo de meio empregado nos CSVs oficiais. A comparação espacial utiliza 1.786 mortes do Fogo Cruzado e 2.218 registros oficiais: dos 2.221 com coordenadas numericamente utilizáveis, três pontos a mais de 50 km da referência foram excluídos apenas do mapa. Essa triagem não substitui validação pelo limite municipal. Grades em aproximação métrica local, com quatro origens e células de 250, 500 e 1.000 m; correlações sobre a união das células ocupadas, atribuindo zero à fonte sem registro na célula. Spearman mede associação de ordenação, não concordância absoluta. As verificações temporais incluem anos separados e primeiras diferenças; não controlam integralmente sazonalidade e autocorrelação. Idades válidas de 1 a 110 anos; perfis etários condicionados ao preenchimento. Sexo/gênero foi harmonizado em categorias amplas, preservando a distinção conceitual entre as fontes. Não foram estimados efeitos causais, cobertura integral ou total oculto de mortes. Números sujeitos a revisões das fontes.

Fonte dos dados: Instituto Fogo Cruzado e SSP-BA. Elaboração e cálculos: URBIK. Resultados referentes a Salvador; não representam outros municípios.