A relação entre segurança pública e educação também pode ser examinada na escala do entorno escolar. Episódios de violência armada próximos às escolas podem interromper atividades, dificultar deslocamentos e afetar as condições de ensino. Verificar se essa exposição está associada ao desempenho educacional exige considerar que escolas de territórios diferentes também apresentam diferenças socioeconômicas, estruturais e de aprendizagem anterior.
Este estudo combina registros georreferenciados do Instituto Fogo Cruzado com informações educacionais do Inep para investigar uma questão: escolas próximas a episódios de violência armada com ação policial apresentam notas posteriores mais baixas, mesmo quando consideradas suas características e seu desempenho anterior?
A análise de 236 escolas públicas de Salvador mostra associações predominantemente negativas, mais evidentes no raio de 250 metros. No raio principal de 500 metros, entretanto, as estimativas contínuas apresentam intervalos que incluem zero. Os achados recomendam atenção à proximidade imediata das escolas, sem permitir atribuir causalmente as diferenças de desempenho à atuação policial.
As bases e a população estudada
Os episódios de violência armada provêm do Instituto Fogo Cruzado, que recebe informações por diferentes canais, verifica relatos e sistematiza registros georreferenciados. Foram selecionados exclusivamente os episódios classificados com ação policial: 537 em Salvador em 2024 e 514 em 2025, no extrato utilizado. A presença de agentes, isoladamente, não determinou a inclusão.
A unidade observada é o episódio de violência armada com ação policial registrada, não uma operação policial administrativa. Uma operação pode gerar mais de um episódio, enquanto operações sem violência armada registrada ficam fora dessa medida. O filtro também não identifica, por si só, a autoria de cada disparo.
O desempenho foi medido pelas médias escolares de Língua Portuguesa e Matemática do Saeb de 2023 e 2025, referentes ao 5º ano do ensino fundamental. Foram utilizadas as proficiências divulgadas nas planilhas de resultados escolares do Inep, não o Ideb, que combina aprendizagem e fluxo escolar.
As condições socioeconômicas foram representadas pelo INSE escolar de 2023. O Censo Escolar de 2023 forneceu matrículas, docentes, rede de ensino e recursos de infraestrutura. Coordenadas de um cadastro geográfico auxiliar foram vinculadas pelo código Inep. O painel final reúne 236 escolas públicas municipais e estaduais com localização, notas nas duas edições e demais variáveis necessárias aos modelos. Não representa a totalidade das escolas da cidade.
Como a exposição foi medida
Calculou-se a distância geográfica entre cada escola e cada episódio selecionado, nos raios de 250, 500 e 1.000 metros. A medida principal é o número de episódios em 2024 a até 500 metros da escola. O uso de um ano anterior à nota de 2025 estabelece uma sequência temporal, mas não representa o início da exposição à violência nesses territórios.
Também foram contados dias distintos com episódios e a presença de qualquer ocorrência. Essas datas não equivalem necessariamente a dias letivos ou a interrupções das aulas. Um mesmo episódio pode estar próximo de várias escolas; somar as exposições escolares não produz o total municipal.
| Episódios em 2024 a até 500 metros | Escolas |
|---|---|
| Nenhum | 51 |
| Um ou dois | 80 |
| Três a nove | 91 |
| Dez ou mais | 14 |
| Total | 236 |
A média foi de 3,11 episódios por escola, com mediana de dois e máximo de 14. A média de dias distintos foi de 3,06. A distribuição combina unidades sem registros próximos e outras com exposição recorrente.
Como foram feitas as comparações
As regressões lineares explicam separadamente as notas de Português e Matemática de 2025. Os ajustes consideram simultaneamente as duas notas de 2023, INSE, rede de ensino, matrículas nos anos iniciais, razão entre alunos e docentes da educação básica e disponibilidade de internet, biblioteca, laboratório de informática e quadra esportiva. Indicadores constantes são omitidos; a localização urbana ou rural é considerada quando apresenta variação.
Esses ajustes reduzem diferenças observáveis entre escolas com exposições distintas. Não houve sorteio nem novo pareamento entre escolas expostas e controles nesta análise: a comparação foi realizada por covariáveis, usando as mesmas 236 unidades em todas as especificações. Cada escola recebeu o mesmo peso, independentemente do número de alunos.
A exposição foi representada pela contagem original, pelo logaritmo de um mais a contagem, pela presença de algum episódio e pelas faixas de frequência. Como a proficiência é uma variável contínua, manteve-se a regressão linear. A pequena contagem na variável explicativa não exige, por si só, um modelo de Poisson.
Os intervalos de confiança consideram agrupamentos espaciais aproximados de dois quilômetros. A origem da grade também foi deslocada para avaliar a sensibilidade da inferência. Essa abordagem não elimina a possível correlação entre células vizinhas.
Resultados no raio principal de 500 metros
| Comparação de exposição | Português: pontos e IC95% | Matemática: pontos e IC95% |
|---|---|---|
| Cinco episódios adicionais, modelo linear | −1,54 [−4,07; +0,99] | −2,16 [−5,06; +0,74] |
| Cinco versus nenhum, modelo logarítmico | −1,88 [−5,72; +1,97] | −2,64 [−7,42; +2,14] |
| Algum episódio versus nenhum | −0,99 [−5,19; +3,21] | −1,87 [−7,22; +3,47] |
Fonte: cálculos URBIK com dados do Fogo Cruzado, Inep e cadastro geográfico auxiliar. Valores em pontos de proficiência, não em percentuais. IC95% indica intervalo de confiança de 95%.
As estimativas são negativas nas duas disciplinas, mas todos esses intervalos incluem zero. A direção estimada sugere notas menores com maior exposição; a precisão, porém, não permite estabelecer uma diferença clara no recorte principal. Isso tampouco demonstra ausência de prejuízo, pois os intervalos permanecem compatíveis com diferenças negativas.
Contar dias distintos produz resultados semelhantes. Cinco dias adicionais associam-se a −1,45 ponto em Português, com intervalo de −4,10 a +1,21, e −2,21 em Matemática, de −5,26 a +0,85. Ambos incluem zero.
Na análise por faixas, as 14 escolas com dez ou mais episódios apresentam diferença ajustada de −8,00 pontos em Matemática em relação às unidades sem registros, com intervalo de −15,34 a −0,67. Entretanto, o valor-p varia de 0,007 a 0,055 conforme a origem da grade espacial. O resultado ultrapassa e deixa de ultrapassar o limiar convencional de 5%, sendo sugestivo e sensível à inferência.
A associação é mais forte nas imediações
A 250 metros, 125 escolas não tiveram episódios registrados em 2024 e 111 tiveram pelo menos um. A média foi de 0,87 episódio, com máximo de nove. Nesse recorte, a associação negativa apresenta maior magnitude.
| Comparação a 250 metros | Português: pontos e IC95% | Matemática: pontos e IC95% |
|---|---|---|
| Cinco episódios adicionais, modelo linear | −8,06 [−14,63; −1,49] | −8,24 [−16,43; −0,04] |
| Cinco versus nenhum, modelo logarítmico | −7,47 [−13,57; −1,38] | −7,60 [−15,20; +0,01] |
| Algum episódio versus nenhum | −3,92 [−7,62; −0,22] | −4,08 [−8,79; +0,63] |
Cinco episódios representam uma diferença elevada diante da baixa frequência observada nesse raio. O intervalo de Matemática no modelo linear também está muito próximo de zero. Na comparação entre alguma ocorrência e nenhuma, apenas Português apresenta intervalo que exclui zero. A direção negativa é consistente, mas a precisão e a significância dependem da especificação.
O padrão é compatível com a hipótese de que episódios nas imediações tenham relação mais direta com o funcionamento escolar. O estudo não observa interrupções, frequência ou mecanismos que confirmem essa explicação.
A 1.000 metros, os modelos contínuos têm intervalos que incluem zero. A comparação entre alguma exposição e nenhuma apresenta diferenças negativas grandes, mas depende de apenas seis escolas sem registros contra 230 expostas. A limitação desse grupo de referência impede tratar o contraste como evidência principal.
Limitações para interpretar os achados
A principal limitação é o confundimento territorial. A localização e a intensidade da atuação policial respondem à violência e a outras condições locais que também podem afetar a educação. Mesmo com os ajustes utilizados, podem permanecer diferenças não observadas. Os modelos não incluem separadamente a violência sem ação policial; portanto, não isolam a atuação policial do contexto que a motivou.
As médias de 2023 e 2025 representam coortes diferentes, não o ganho individual dos mesmos estudantes. A seleção de escolas com informações completas também pode excluir unidades com dificuldades de participação ou divulgação de resultados. As taxas de participação nas provas não foram incorporadas ao painel.
As coordenadas auxiliares não tiveram sua validade histórica confirmada individualmente. Pequenos deslocamentos podem alterar a exposição, especialmente a 250 metros. Além disso, os registros não medem a exposição individual dos alunos, a ocorrência em horário escolar, a frequência, os fechamentos ou consequências psicossociais.
A análise é exploratória e reúne 42 contrastes, sem correção dos valores-p por comparações múltiplas. Eles não constituem confirmações independentes. Essa multiplicidade recomenda cautela ao destacar apenas os resultados que ultrapassam o limiar convencional de significância.
Implicações para as políticas públicas
Os achados sustentam uma agenda de monitoramento integrado entre educação e segurança, com atenção à proximidade dos episódios em relação às unidades de ensino. Não estabelecem um raio universal de proteção, mas indicam que recortes amplos podem diluir associações presentes nas imediações das escolas.
Uma aplicação concreta seria vincular os episódios a calendários, frequência e interrupções das aulas. Isso permitiria distinguir escolas apenas próximas dos registros daquelas cujo funcionamento foi efetivamente afetado. A exposição territorial pode orientar acompanhamento adicional, articulado a indicadores educacionais, sem transformar a análise em ranking causal de escolas ou operações.
No planejamento da segurança, a localização das escolas, os horários de entrada e saída e as rotas dos estudantes podem compor a avaliação de riscos e os protocolos de comunicação. Na educação, reposição de atividades, apoio pedagógico e atendimento psicossocial devem responder às necessidades observadas e ter seus resultados avaliados. O estudo não estimou a eficácia dessas intervenções.
Para avançar na identificação causal, são necessários históricos mais longos, coordenadas verificadas no tempo e dados precisos de participação e interrupção. Avaliações de mudanças bem delimitadas exigiriam examinar tendências anteriores, comparabilidade dos grupos e condições territoriais que influenciam a atuação policial.
O estudo identifica um sinal de associação entre episódios de violência armada com ação policial e menor desempenho posterior, sobretudo nas imediações das escolas. Esse sinal justifica aprofundamento e atenção territorial, mas não permite atribuir à atuação policial, isoladamente, as diferenças encontradas. A contribuição imediata é aproximar informações de segurança e educação e tornar verificáveis os impactos sobre a continuidade do ensino.
Fontes e referências
INSTITUTO FOGO CRUZADO. Registros de violência armada de Salvador, 2024–2025. Metodologia de coleta e checagem e documentação da API.
INEP. Resultados escolares do Saeb de 2023 e 2025, na divulgação dos anos iniciais por escola; INSE escolar de 2023; microdados do Censo Escolar de 2023.
PEDREIRA JR. Cadastro geográfico auxiliar de escolas de Salvador, disponibilizado no material Dados geográficos.
Nota metodológica. Estudo observacional exploratório de 236 escolas públicas municipais e estaduais com notas completas de Português e Matemática do 5º ano em 2023 e 2025, INSE e covariáveis. Extração do Fogo Cruzado em outubro de 2026; episódios de 2024 são a exposição principal. Distâncias Haversine, raio da Terra de 6.371.008,8 m. Regressões lineares separadas por disciplina com ajuste pelas duas notas anteriores, INSE, logaritmos de matrículas e razão alunos/docentes, rede e quatro indicadores de recursos; indicadores constantes são omitidos. Erros agrupados em grade aproximada de 2 km, com quatro origens, correção por número de grupos e distribuição t. Intervalos nominais de 95%, sem correção pelos 42 contrastes exploratórios. O raio de 500 m é o recorte principal; 250 e 1.000 m são sensibilidades. A exposição de 2025 não entra nos modelos para evitar misturar registros posteriores à prova sem conhecer a data específica da aplicação. O cadastro auxiliar não teve sua validade histórica verificada individualmente. Não há identificação causal, medida de ganho individual ou estimativa de fechamento escolar. Resultados sujeitos à cobertura e revisão das fontes.
Fonte dos dados: Instituto Fogo Cruzado, Inep e cadastro geográfico auxiliar. Elaboração e cálculos: URBIK. Resultados referentes ao painel de Salvador.